Enfim, Las Vegas
Já visitamos Phoenix, Tempe, Flagstaff, o Grand Canyon, as Superstition Mountains e até mesmo Los Angeles duas vezes (no meu caso). Para fechar com chave de ouro, só faltava mais uma viagem importante em nossa lista: Las Vegas. A famosa Cidade do Pecado, encravada no meio do deserto, próxima a fronteira do Arizona com Nevada, ao noroeste de Phoenix.
Para tanto, tiramos quatro dias de folga: de sexta, 26 de Fevereiro até segunda, 1 de março. Também alugamos um belo Chevrolet Cobalt vermelho (o mais barato que tinha na locadora) no aeroporto, dessa vez sem maiores problemas, como na primeira tentativa, e pegamos a estrada. A distância entre Phoenix e Las Vegas é de cerca de 300 milhas, o que dá cerca de 480 km. Saímos cedo de manhã, para poder pegar a estrada de dia e apreciar a paisagem do deserto e das cidadezinhas de beira de estrada.
Aliás, é muito bom pegar a estrada aqui nos EUA. O que não é surpreendente, sendo esse um país que gosta tanto de carros. Teria sido melhor ainda se não tivéssemos pego um desvio errado ao longo da estrada em Wickenburg, cidade ao noroeste de Phoenix. E pior que é fácil de se perder por aqui, porque a paisagem do deserto é sempre igual. Por sorte, o co-piloto aqui se deu conta antes que fosse tarde demais e fôssemos parar em Los Angeles e conseguimos retornar à rota 93. Andamos 32 milhas a mais nessa brincadeira, mas poderia ter sido pior.
Mas a maior burrada da viagem ainda estaria por vir. Ao nos aproximarmos da fronteira do Arizona com Nevada, o trânsito de repente ficou completamente congestionado, provavelmente por dois motivos: a polícia devia estar parando vários carros para inspeção e por causa da Hoover Dam, a famosa represa.
Paramos para tirar algumas fotos nos paradouros que havia na beira da estrada, mas era muito longe da represa em si para as fotos ficarem boas. Além do mais, eu queria tirar de outros ângulos. Aí é que veio a ideia do dia: aproveitando que o trafego estava trancado, alguém sairia do carro, bateria umas fotos e voltaria logo depois, já que não seria difícil alcançar o veículo. E lá fui eu, evidentemente, a bater fotos da represa enquanto nosso carro seguia adiante, certo de que seria possível alcançá-lo depois. Só que o congestionamento diminuiu mais adiante e de repente o trânsito não estava mais tão lento assim. Assim, lá se foi o nosso carro ao infinito e além. Para piorar, eu havia deixado meu celular lá dentro, então não havia como ligar para eles. E não era tão fácil assim fazer o retorno na estrada e tampouco parar lá perto para me buscar, pois a mesma era bem estreita e nem sequer tinha acostamento. Então lá fiquei eu perambulando na frente de uma lojinha de souvenires, esperando que eles voltassem. No fim, depois de vinte minutos que pareceram quarenta, meus amigos conseguiram retornar, me resgatar da represa e seguimos viagem em direção a Vegas. E as fotos nem ficaram tão boas assim. Que péssima ideia.
Mas apesar dos pesares, chegamos vivos e inteiros em Las Vegas, onde nos acomodamos no USA Hostels local. As resenhas da internet estavam certas sobre uma coisa: o albergue realmente fica meio distante da Strip, a avenida principal de Las Vegas. E a vizinhança também era meio estranha, com vários tipos suspeitos circulando. Certa noite chegamos no albergue e nos deparamos com três carros da polícia, com sirenes ligadas e tudo, estacionados na esquina. Nem quis perguntar o motivo. A exceção do grupo foi a Camila, que ficou com um amigo no Stratosphere, mais um entre tantos hotéis/cassino por aqui. Por sorte, tínhamos nosso próprio carro para ir e vir da Strip, que também é bem extensa. Para quem está a pé o jeito é pegar ônibus mesmo.
Infelizmente, com o cansaço da viagem, não deu para sair muito na primeira noite. Pelo menos deu para visitar a passarela da Fremont Street, com seus cassinos e apresentações musicais. Quem estava tocando naquela noite era a banda de rock Foghat. Quem conhece rock das antigas sabe quem são. Depois ainda demos uma voltinha pela Strip e nos recolhemos para aproveitar melhor o dia seguinte. Viajar cansa, ainda mais depois de pegar uns caminhos errados e perder mais tempo do que o previsto. Pelo menos ganhamos uma hora no nosso dia, já que o estado de Nevada está uma hora atrás.
DIA 2 – CHUVA E COMÉDIA
Acordei mais disposto depois de uma bela noite de sono. Afinal de contas, o quarto é praticamente nosso, já que das oito camas, apenas três estão ocupadas: as nossas próprias. É uma pena mesmo que não pegamos o albergue muito cheio. A melhor parte de ficar em um albergue é conhecer pessoas novas. Sem falar que várias atividades oferecidas pelo albergue são para quem tem 21 anos ou mais. Bom, quem sabe eu volto daqui a três anos para poder aproveitar mais.
E lá fomos nós explorar um pouco mais dos inúmeros cassinos de Las Vegas. Mais uma vantagem para quem tem carro aqui é todos os cassinos oferecem estacionamento gratuito, então deu para largar o veículo e sair caminhando um pouco. Visitamos, o Bally’s, Paris, Bellagio e Caesars’ Palace, Aliás, é curioso como Las Vegas copia um pouco de tudo para criar uma identidade. No cassino Paris, por exemplo, há uma mini-Torre Eiffel, um restaurante com estilo francês e a decoração interna é feita para lembrar a França. Ou o Caesars’ Palace: seus pilares e sua arquitetura (como se eu entendesse disso) lembram a Roma antiga. Sem falar que existem cassinos como o New York New York, Rio, Excalibur, Luxor (que é em formato de pirâmide e com decoração egípcia), e assim por diante. Vegas é um pastiche do mundo. Apesar de que, fora dos cassinos e da vida na Strip, não há nada de mais na cidade. Os outros bairros/subúrbios são absolutamente normais, um tanto vazios, parece até Mesa.
E passamos a manhã pulando de cassino em cassino, observando o chafariz gigante do Bellagio, e até ocasionalmente apostando um dólar nas máquinas. Confesso que até eu me arrisquei, embora não pudesse, pois não tenho 21 anos. Alíás, acho que eu não poderia nem sequer ter ficado na seção de jogos de azar, mas como nenhum segurança veio me pedir identidade, fui ficando. O um dólar que apostei até me rendeu US$ 1,75 em certo momento. Mas aí resolvi apostar de novo e baixei para US$ 0,90. A partir daí cessei a jogatina, porque um homem tem que saber a hora de parar antes de perder muito. E nem sequer fui trocar o ticket por dinheiro de verdade, porque seria ridículo, convenhamos, 90 centavos. Guardei o ticket como recordação mesmo.
É aí que se entende como essas coisas viciam. Minha vontade era de ficar jogando por horas, mas como eu não tinha o dinheiro (e mesmo se tivesse, não iria torrar tudo assim), não apostei mais. Imagina quem aposta US$ 100, 200, 1000 de uma vez só? Ah, e uma curiosidade: o pacote mais barato para se casar dentro do hotel/cassino Bellagio custava US$ 750. Nada mau, hein? Mas ainda acho que aquelas capelinhas de rua com o pastor vestido de Elvis Presley seriam mais divertidas.
Para o almoço, vejam só: churrasco brasileiro! Isso graças a um cupom que ganhamos na rua, que dava desconto para os pés-rapados aqui. O nome da churrascaria era Pampas, e contava com rodízio e buffet. Nada como a comida de casa. Infelizmente, não era bem a mesma coisa. A lingüiça que botaram no feijão, por exemplo, era muito apimentada, e um dos pratos era alho puro. Confesso que nunca vi tal receita na nossa culinária. Já as carnes, bem, não eram ruins, mas nem sempre acertavam. A picanha, por exemplo: a primeira veio meio queimada, a segunda veio mal-passada demais, e a terceira, enfim, ficou boa. Eles ainda contavam com um presunto, que eu não me lembro de ter visto em churrascarias do Brasil. Mas vejam bem, um presunto inteiro, um pedação de carne, não aqueles presuntos fatiadinhos de supermercado. Estranho. Mas deu para se alimentar e tirar a barriga da miséria, porque eu já não agüentava mais comer fast food. Para se ter uma ideia, as quatro refeições anteriores àquela tinham sido hambúrgueres apenas. Não conseguia nem mais passar perto de um Burger King. Quem diria que um churrasco serviria como desintoxicação alimentar?
À noite, nada melhor para experimentar Las Vegas do que ir em algum show, seja ele de música, mágica, comédia, teatro, circo ou o que quer que seja. Até porque volta e meia chovia e parava lá fora, então seria bom ficar em algum lugar fechado. E cada “núcleo” foi para algum espetáculo diferente: Camila e seu amigo Gustavo para a apresentação “O”, do Cirque du Soleil, no Bellagio, os irmãos Elídia e Adriano para o show “Mystére”, também do Cirque du Soleil, no Treasure Island e eu, para um modesto porém muito bom show de stand-up comedy num obscuro cassino chamado Palace Station. Foi bem barato, US$ 18, pois consegui o ingresso com desconto em uma das tendinhas ao longo da Strip que vendem tickets pela metade do preço. O comediante principal era Jim Florentin, procurem no YouTube, o cara é bom mesmo.
Para finalizar a noite, um pouco de boliche no The Orleans com a Camila e seu par. Afinal de contas, era o aniversário dela de 22 anos. Aliás, não só jogamos boliche como jantamos lá também, então foi a minha primeira refeição em um cassino. Após o boliche, ainda demos uma volta por outros cassinos, e nos retiramos.
DIA 3 – MAIS CASSINOS
E no terceiro dia, visitamos cassinos. Sim, eu sei que está ficando repetitivo, mas o que mais podemos fazer em Las Vegas? Estamos falando de uma cidade que tem máquinas caça-níquel até no aeroporto. Depois de um almoço deplorável no Fitzgerald’s, encontramos Camila e, já com o quarteto completo, fomos nos perder por aí. E como eu falei, visitar cassinos não é nada de novo, mas cada cassino tem o seu próprio estilo. Visitamos o The Venetian, inspirado em Veneza (dã), Pallazzo, Planet Hollywood, além de dar uma volta de carro e pegar um belo congestionamento na Strip. O nível de combustível já estava bem baixo, e por alguns momentos fiquei com medo de que fosse acabar no meio da avenida, o que seria extremamente constrangedor.
Por sorte, isso não aconteceu e conseguimos dar uma banda por Vegas, jantar uma janta decente e barata, nos perder um pouco por aí e nos cansar o suficiente para ir dormir logo depois da meia-noite. Em Las Vegas! Absurdo, não? Mas fazer o quê, o cansaço acumulou e nos pegou de jeito. E lá fomos nós encarar mais um congestionamento para voltar ao albergue e dormir mais ou menos cedo para pegar a estrada na manhã seguinte.
DIA 4 – VOLTANDO AO ARIZONA
Nada como acordar cedo e botar o pé na estrada. Ainda mais quando a missão é entregar o carro na locadora até as 19.30h. Sendo assim, acordamos cedo e lá fomos nós voltar ao nosso estado “natal”, mas dessa vez por uma rota alternativa, para evitar a tranqueira que é passar pela Hoover Dam. Por incrível que pareça, tudo deu certo. Só nos perdemos um pouco em Wickenburg (sempre essa maldita cidadezinha), mas dessa vez corrigimos a rota rápido, sem enormes desvios. No fim das contas, depois de chegarmos em casa, ainda aproveitamos o carro para transportar algumas comprinhas no Walmart (principalmente bebidas, que é o que pesa mais), naquele que talvez seja o nosso último rancho aqui nos EUA. Snif…
Feito isso, ainda deu tempo de devolver o carro com o tanque cheio no aeroporto Sky Harbor. Foi em cima da hora, mas foi. Pelo menos assim aproveitamos o carro até o último minuto. Sem o carro, de volta à vida normal: tomamos o trem e mais dois ônibus na longa jornada até chegar ao nosso lar.
Com isso, terminou-se a última grande viagem que fizemos todos juntos. É, no fim até que deu tudo certo, não? Apesar das dificuldades enfrentadas, até que nos saímos bem em nossas viagens. Valeu a pena, talvez justamente por causa das pequenas confusões em que nos metemos. A partir de agora, não viajaremos mais todos juntos. Dá para dizer que Las Vegas foi o fim de uma era, com o perdão do exagero. Foi bom enquanto durou.
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