California Days 3: A Última Viagem
Hora de completar a trilogia. Como já foi devidamente explicado no post anterior, terminei meu trabalho na pizzaria no domingo, dia 7, e fiquei livre, leve e solto para ir para algum lugar. Portanto, achei por bem voltar à terra de Schwarzenegger, e quando digo isso, não me refiro à Áustria, e sim à Califórnia, mais especificamente San Diego.
Da primeira vez, fomos a Los Angeles de carro. Da segunda, eu decidi ir de avião. E na terceira, hora de experimentar algo diferente: os famosos ônibus Greyhound. Acreditem se quiser, mas Mesa possui uma estação da Greyhound. E foi de lá que parti na segunda-feira, 8 de março, em direção à Costa Oeste americana.
O caminho, no entanto, foi truncado. Quando partimos, às 8.30 da manhã, o ônibus estava praticamente vazio, o que me deixou feliz. No entanto, o mesmo fez uma parada em Phoenix, onde todos os passageiros desceram e trocaram de ônibus, esse sim em direção à Califórnia. Porém, não sem antes parar em Tolleson, na região metropolitana de Phoenix, e Yuma, uma cidade na pontinha do Arizona e que faz fronteira com o México. No fim das contas, não teve lugar sobrando no ônibus, infelizmente.
E as pessoas que tomam o ônibus podem ser meio estranhas. Uma das passageiras, por exemplo, estava usando calças de pijama. Porque alguém faria isso? Outro passageiro, e isso eu ouvi sem querer em conversas alheias, estava indo para Yuma para pagar fiança para um(a) amigo(a) que se meteu em um acidente de carro, pelo que entendi. Sem falar nos inúmeros hispânicos presentes no ônibus. Nada contra eles, mas coitados, são tão humildes. Mas tudo bem, afinal de contas a ideia desse intercâmbio era ter um gostinho da vida real na América, e isso conta para a experiência também.
Tendo passado pelo Arizona, ainda fizemos mais uma parada numa cidade chamada Calexico, cujo nome eu particularmente achei um trocadilho ridículo. “Que nome vamos dar para a nossa cidade? Bom, tecnicamente ela está na Califórnia, mas é cheia de mexicanos e ainda por cima fica na fronteira. Hmm…”.
Então, depois de cerca de oito longas horas na estrada, várias delas tentando dormir e não conseguindo por causa de conversas alheias e risadas estridentes de uma passageira, cheguei finalmente à estação de ônibus de San Diego, localizada bem no centro da cidade.
O albergue também ficava no centro e, de novo, era um da rede USA Hostels, o terceiro em que fiquei, sendo que existem quatro (há um em San Francisco), ou seja, se eles tivessem algum tipo de cartão fidelidade, eu já seria quase um cliente VIP. E uma curiosidade: essa rede de albergues foi votada a melhor dos EUA, sendo que o albergue de San Diego foi eleito o melhor dos EUA em 2009 pelos usuários do site Hostelworld. Nada mau, hein?
Depois de me acomodar no meu quarto (com 6 camas, o mais barato), comi uma bela massa com bacon e presunto por US$ 5, oferecida pelo albergue. E durante a janta, já conversei com dois brasileiros (sempre eles, em toda parte) que fazem parte da equipe do hostel. Exatamente que nem fiz em Los Angeles. O que tem de brasileiro em San Diego não é pouco. Aliás, na Califórnia inteira dá para encontrar uma legião de tupiniquins, sendo que aqui, pela primeira vez na viagem, encontrei uma outra pessoa de Porto Alegre! Eta mundinho pequeno.
Não fiz grandes coisas na primeira noite, apenas fiquei no lounge conversando com meus novos amigos estrangeiros e descansando da longa jornada de ônibus.
TERÇA-FEIRA: PANDAS, PARQUES E TACOS
Na terça-feira, dia de visitar o famoso zoológico de San Diego, um dos maiores do mundo. Fomos eu, duas argentinas, um francês e um israelense (provavelmente o único com quem já falei na vida) ver gorilas, ursos, flamingos, girafas, águias, elefantes, macacos, peixes, rinocerontes, cobras, coalas, mais peixes, pássaros e, é claro, os famosos pandas chineses, entre inúmeros outros animais. Infelizmente os ursos polares, Sem falar que eles tinham até mesmo um bicho tão tradicional do nosso estado, principalmente no Taim: capivaras. Quem diria?
Depois de caminhar pra cacete pelo zoológico afora (não é à toa que é um dos maiores do mundo), era hora de parar de observar animais e comer alguns (desculpa, leitores vegetarianos). E lá fomos nós, procurar algo para comer no Balboa Park, parque onde fica localizado o zoológico e mais um monte de museus. Almoçamos um Tamales, uma comida mexicana que consiste em casca de milho recheada com mais milho (dessa vez uma espécie de papa) e qualquer coisa que se possa imaginar, desde carne até chili. Soa estranho, mas até que é tolerável.
Para baixar a comida mexicana, que era levemente apimentada (que surpresa), nada melhor do que uma caminhada pelo belo Balboa Park, repleto de prédios em estilo colonial espanhol. No entanto, eles foram todos construídos no início do séc. XX, uma homenagem às raízes espanholas de San Diego. É um lugar bastante fotogênico, como vocês podem ver na galeria de fotos lá embaixo.
À noite, era Taco Tuesday, uma atividade do albergue em que todo mundo se reunia e ia para um restaurante/bar/pub mexicano para comer tacos por US$ 2 e tomar margaritas por US$ 5. O detalhe é que só entrava maiores de 21 anos, o que não é meu caso. Mesmo assim, peguei meu passaporte e identidade e resolvi me juntar à multidão e tentar, afinal de contas não tinha nada melhor para fazer mesmo. E não é que deu certo? Por algum motivo desconhecido, o segurança olhou meu passaporte e me deixou entrar. Ou o cara era péssimo em matemática ou eu que tenho muita sorte, porque outro hóspede, de 20 anos, foi barrado. Vai entender.
Portanto, entrei, comi uns tacos e bebi uma coca-cola mesmo, para não arriscar. Depois de sair, peguei um pedicab, que é quase como um ricksha, uma bicicleta-táxi para turistas. Por coincidência (ou por pura estatística mesmo), o motorista era um brasileiro. Aliás, outra curiosidade: uma das vagas de emprego do programa FREE era justamente essa, puxar um pedicab pelas ruas de San Diego. Interessante, não?
Após tantas emoções, terminei a noite no lounge do albergue, papeando com os hóspedes e fui dormir logo depois.
QUARTA-FEIRA: OLD TOWN, CAIS DO PORTO E PUBS
Depois de um reforçado café da manhã com panquecas liberadas (marca registrada USA Hostels), peguei um dos simpáticos trolleys (ou seja, trens) até o bairro histórico conhecido como Old Town, onde San Diego começou. Vários casarões antigos, lojinhas de bugigangas mexicanas e/ou do Velho Oeste e uma praça simpática, com alguns restaurantes. Valeu a pena pelas informações históricas sobre a cidade, que já pertenceu ao México. Aliás, boa parte do sul da Califórnia certa vez pertenceu ao México, o que provavelmente vocês já sabiam. San Diego, portanto, é mais um dos tantos territórios que os americanos surrupiaram dos pobres mexicanos. Pelo menos fizeram bom uso da área e construíram uma bela cidade.
Fui sozinho, mas por pura sorte encontrei uma hóspede do albergue passeando por lá, uma francesa chamada Pauline. Ela estava com uma amiga da Indonésia (!), que ela havia conhecido aleatoriamente. Como as conexões humanas são fascinantes.
Depois de conhecer um pouco da história de San Diego e almoçar um belo burrito, pegamos o trem de volta em direção ao centro, mas paramos no caminho para andar pela beira do cais, apreciar um pouco o mar, e tirar algumas belas fotos. Dali, era fácil ir a pé até o albergue, e foi o que fizemos. Como é bom quando as coisas ficam próximas umas das outras e não se precisa de um carro para conseguir explorar a cidade (ouviu bem, Mesa?).
A atividade do dia, ou melhor, da noite, era o tal do Pub Crawl, ou seja, um tour por vários pubs. Evidente que era para maiores de 21, mas, de novo, pensei que não custava nada tentar. E até que deu certo no começo. Me deixaram entrar no primeiro bar, apenas me disseram que eu não poderia beber. E eu francamente não me importo, pois eu queria mesmo é me juntar ao pessoal, e não encher a cara. Não tem problema se todo mundo está bebendo cerveja e eu só no guaraná. Aliás, acreditem se quiser, eles tinham guaraná Antarctica no bar! É, amigo, a invasão brasileira está deixando suas marcas. Um dos hóspedes do albergue, um indiano radicado nos EUA, até me disse que já bebeu cerveja Brahma em um pub de cervejas importadas.
Tudo ia bem até que a tropa foi para o segundo bar, no qual não só não consegui entrar como tive que aturar o mau humor do segurança. Para piorar, o bar tocava rock das antigas, como eu gosto, e tinha um touro mecânico. E eu perdi isso! Enquanto meus co-hóspedes se divertiam lá dentro, fiquei perambulando na rua, e quando finalmente saíram para tentar entrar em outro bar, lá fui eu junto, com uma ínfima esperança de conseguir entrar no bar. Mas nada feito: fiquei de fora novamente. Como isso é frustrante. Tudo bem, a idade para beber aqui é 21 anos e eu não posso dizer que não fui avisado, mas como é ruim ver todos se divertindo e ser o único a ficar chupando o dedo. Se ao menos eu tivesse uma identidade falsa…
Depois de ser sumariamente barrado duas vezes, desisti e fui me recolher ao meu quarto e dormir para aproveitar bem o dia seguinte.
QUINTA-FEIRA: VIVA MÉXICO!
Como em todos os dias das minhas viagens que faço sozinho, acordei sem saber o que faria pelo resto do dia. Minha ideia original era ir para a Ilha de Coronado com alguns hóspedes aleatórios. No entanto, meus planos mudaram: me convidaram para cruzar a fronteira e ir até Tijuana, México. Que emocionante, não?
O plano era o seguinte: dois dos hóspedes estavam com um jipe, e assim, iríamos de carro até a fronteira, estacionaríamos o veículo ali perto e atravessaríamos a pé. Nosso grupo consistia em um brasileiro (dã), dois ingleses, um australiano e uma filipina (!), que já havia estado em Tijuana antes e serviu um pouco como guia. Aliás, outra curiosidade: dá para ir de trolley até a fronteira. Isso mesmo, os trens da cidade de San Diego vão até o extremo sul da cidade, ou melhor, do país. E foi o que fizemos, não sem antes passar numa casa de câmbio e trocar dólares por pesos mexicanos. Um dólar compra cerca de 13 pesos, então os meus US$ 20 me renderam 220 pesos. O suficiente para passar uma tarde em Tijuana.
Para entrar no México, foi tranqüilo: sem filas, sem burocracia, sem revistas na alfândega. Poderíamos ter entrado com algumas armas e cocaína na mochila que não teria dado nada. Depois de cruzar a fronteira, tomamos um táxi até a Avenida Revolución, a principal da cidade. O taxista nos deixou bem em frente a um restaurante, o que eu suspeito que não tenha sido mera coincidência e sim um favor entre amigos.
Durante o almoço, mais uma pessoa se juntou ao grupo: outro inglês, que estava sentado solitário na mesa ao lado e estava hospedado em outro albergue de San Diego. A comida estava boa: meu prato continha vários itens como arroz, feijão, um taco, e até mesmo algo que eu só posso definir como pimentas jalapeño recheadas à milanesa. A única parte negativa da refeição foi uma dupla de mariachis que assassinaram a música La Bamba. Deplorável.
Depois que nos levantamos, mencionei que eu queria comprar uma daquelas máscaras de luta livre tão típicas do México, as máscaras de luchador. Pronto: um dos garçons desceu correndo e voltou com o dono de uma lojinha de bugigangas ao lado, trazendo uma sacolinha cheia das tais máscaras. Comprei a mais barata, e surpreendentemente meu espanhol foi bom o suficiente para pechinchar com o cara.
E evidente que depois que descemos, o sujeito tentou me vender outras tralhas da sua lojinha. Carteiras de couro, canivetes, camisas, etc. Era impossível caminhar pela avenida sem ser abordado por todos os vendedores das inúmeras lojinhas de souvenires aqui, mais ou menos como caminhar pelos antigos e saudosos camelôs em frente ao Mercado Público de Porto Alegre. Gloriosos tempos da nossa cidade, não?
“Everything two dollar!”, gritava um. “I have something you don’t need! Come inside”, convidava outro. Mas é compreensível, afinal de contas essas pessoas tem que ganhar dinheiro em cima dos turistas, e não tinha como esconder que éramos turistas. O jeito de se vestir, as câmeras em mão, óbvio demais. Eu era o único que talvez pudesse passar por mexicano, mas a mochila nas costas e uma camisa dizendo “Arizona” não ajudaram muito.
Pelo menos não éramos os únicos. Tijuana recebe vários viajantes como nós, que decidem cruzar a fronteira para experimentar o México. Aliás, é só para isso que as pessoas atravessam a fronteira: só para dizer que cruzaram a fronteira (e talvez para beber, já que a idade mínima lá é 18). Porque Tijuana não tem lá muito a oferecer: é uma cidade pobre, caótica, não muito bonita e cheia de lojinhas de bugigangas para turista. Antes de ir, tinham me dito que parecia Ciudad Del Este no quesito muamba, e creio que seja verdade (nunca fui para o Paraguai). Bom, imagino que todas as cidades de fronteira sejam mais ou menos assim. Com certeza o México tem lugares mais bonitos.
Depois de almoçar, fomos dar uma caminhada: comi um autêntico churros, uma das garotas tirou uma foto montada num burrico (US$ 1 por foto) e até mesmo entramos num clube de strip! E por incrível que pareça, a ideia foi de uma das mulheres. A idade mínima para entrar é 18, mas nem conferiram identidade de ninguém. Apenas entramos, assistimos ao show, tiramos umas fotos e ficamos conversando. O curioso é que as garotas que estavam conosco deviam ser as únicas dentro do bar que não estavam ali a trabalho.
Para voltar, outra aventura: a fila para entrar nos EUA estava gigantesca, quilométrica, faraônica. Por sorte, descobrimos que há um jeito de atravessar a fronteira de van, o que é muito mais rápido do que esperar na fila. Então, mediante um módico pagamento de US$ 5 por cabeça, fomos transportados de volta aos EUA. Não que tenha sido rápido, apenas mais rápido do que esperar de pé. Depois, encaramos a alfândega, e até aí tinha mordomia: quem vinha de van esperava numa fila especial, bem menor do que a geral. Vai entender.
Após retornarmos sãos e salvos à América, repousei um pouco no albergue e ainda encontrei energias para ir num restaurante árabe onde vários dos hóspedes se encontravam, fumando narguilé, conversando e apreciando um show de dança do ventre. E assim se encerrava meu último dia inteiro em San Diego.
SEXTA-FEIRA: SONÍFERA ILHA
E chegou o dia tão temido, a sexta-feira na qual eu retornaria a Mesa. O ônibus, porém, só partia de noite, às 22.30, e como a estação era próxima ao albergue, ainda dava para fazer um passeio de dia. E lá fomos eu, Martin e Marc, dois ingleses, Pauline, a francesa e Alanna, uma australiana, em direção à Coronado Island, uma ilha na qual se chega via ferry boat e da qual se pode ter uma bela vista da skyline Sandieguense (se é que tal palavra existe).
O ingresso custava US$ 3,50 por cada viagem, e partia do cais do porto, que não ficava lá muito longe do centro. Minha ideia original era alugar uma bicicleta e pedalar pela ilha, mas um dos integrantes do grupo não sabia andar de bike. O jeito é caminhar.
E como caminhamos. Até chegar na outra extremidade da ilha, onde fica o histórico Coronado Hotel, construído em 1902, e a praia de Coronado, lá se foram mais de uma hora de caminhada. Realmente, teria sido perfeito utilizar uma bicicleta. Para passar o tempo, fomos conversando, sendo que o maior desafio era entender o que os dois ingleses diziam. Por exemplo: island tem o mesmo som de Ireland. Ái-lãn. É um pouco desafiador para quem está tão acostumado a escutar o sotaque americano, cheio de Rrrr’s. Sem falar que eles eram de Leeds, portanto tinham o sotaque de Yorkshire, diferente do sotaque britânico padrão que se ouve em filmes, que seria o de Londres, imagino. Já o sotaque australiano para mim soa parecido com o inglês. Ainda não consigo diferenciar um australiano de um inglês.
Já a praia em si era um tanto parada, mais pacata, freqüentada por famílias e aposentados. Nada para nossa faixa etária. Talvez Pacific Beach ou Ocean Beach tenham mais a ver conosco. Bom, ao menos deu para tirar algumas fotos interessantes.
Foi esse o meu último passeio em San Diego. Depois disso, apenas perambulei um pouco mais pela cidade e aproveitei minhas últimas horas na party room do albergue, trocando ideias com as pessoas e jogando um pouco de Beer Pong. Não sabem o que é Beer Pong? Cliquem aqui e descubram um pouco mais sobre esse maravilhoso esporte.
E assim, deixei o albergue com mais algumas boas memórias de lugares e de pessoas. Fiz alguns contatos, conheci pessoas excelentes e parti com a esperança, talvez ingênua, de conseguir manter contato minimamente. É triste pensar que eu nunca mais verei a maioria desses rostos, mas não tem como ser diferente. Não há tanto espaço em nossas vidas para tanta gente. Mas aí está a importância de ter contatos: quem sabe algum dia eu não vou para a Austrália, França, Inglaterra, ou para onde quer que seja e revejo essa gente? Facebook está aí para isso. Ou quem sabe algum dia eu pego um emprego no albergue. Afinal de contas, eles estavam contratando.
Divagações a parte, voltei no ônibus das 22.30 em direção a Phoenix e não tem nem como comparar: é muito melhor viajar de noite. Estava bem mais vazio e passa mais rápido, pois eu dormi a maior parte do tempo. E foi bom voltar logo, pois voltei sexta para chegar no sábado com uma missão importante: arrumar as malas para a volta para casa na segunda. É, amigos, chegou a hora de por um fim nessa jornada. Mais informações no próximo post.
GALERIA DE FOTOS
- Brasil, França e Austrália
- Pauline et moi
- A bordo do Ferry Boat
- Depois da farra
- Comendo autênticos churros mexicanos
- Lojinhas de muamba
- A colorida entrada do albergue
- Reparem no que está na minha mão!
- Curtindo um rango mexicano
- Stay classy, San Diego!
- San Diego!






















































































































