O fim

Eu poderia começar o texto dizendo como o tempo passa rápido, mas eu não sei se concordo com esse velho chavão. O tempo não passa rápido nem devagar; ele apenas passa. É tudo uma questão de perspectiva. Eu só sei que os meus três meses nos Estados Unidos se passaram. No seu devido tempo.

Quando me lembro dos primeiros dias, sei que foram três meses atrás, mas poderiam muito bem ter sido duas semanas. Acho que a mente apenas comprime, achata todas as memórias boas mais antigas, fazendo com que todas pareçam eqüidistantes do presente. Talvez por isso, quando me lembro dos bons momentos, tudo pareça ter sido meio curto. Ou talvez seja porque só pensa no tempo quando ele já passou. O tempo não passa rápido, nós é que não prestamos atenção enquanto ele passa. Não sei se vocês vão conseguir entender metade do que eu falei, mas eu tentei.

Rápidos ou não, os últimos três meses foram bons. Quando se começa num emprego desses, é fácil se cansar da rotina rapidamente. Tem que acordar cedo quase sempre, tínhamos que caminhar para o trabalho todos os dias (aliás, tínhamos que caminhar para tudo que é canto, ou pegar o ônibus, o que, em Mesa, requer muita paciência). O trabalho era braçal, cansativo e, convenhamos, carregar louças de um lado para o outro não é exatamente o emprego dos sonhos. O salário também não era lá essas coisas e eu não sou lá um grande fã do órgão. Ah, e eu cheguei a falar da cidade? Mesa é um subúrbio enorme. Tudo era longe, espalhado e nós morávamos numa região suburbana. Ou seja, no subúrbio do subúrbio. Os ônibus demoravam e, embora Tempe, Scottsdale e Phoenix não ficassem tão longe, só de lembrar que precisava pegar dois ônibus e mais o trem para chegar no centro dessas cidades já tirava um pouco da vontade de sair de casa. Sem falar no sacrifício que foi conseguir internet.

Então, é fácil ficar de saco cheio da rotina por causa de todas essas dificuldades. Mas olhando para trás, essas mesmas dificuldades é que me farão sentir falta desse lugar. Porque, como já disse antes, me deu um senso de conquista, de que eu consegui sobreviver sem pais nem velhos amigos por volta. Porque me ajudou a crescer como ser humano. Esse era o objetivo dessa jornada. Aprendi a planejar melhor minhas viagens (vide primeira viagem à Califórnia), a controlar meus gastos (acho que fiquei mais pão-duro ainda), a conviver com pessoas diferentes. Também aprendi a valorizar mais o trabalho alheio. Não que eu fosse um Boris Casoy da vida antes, se é que vocês me entendem, mas depois de lavar louça e limpar mesa por semanas a fio, alguma coisa muda. Acho que depois de conviver com pessoas que trabalhavam lá há cinco anos ou mais, que dependiam mesmo do emprego, também me tornei mais grato por ter tudo que eu tenho. Nenhuma fortuna, mas o suficiente para me bancar uma viagem dessas.

Não só a viagem em si como também todas as outras que fiz durante esses três meses. Los Angeles, Flagstaff/Grand Canyon, Los Angeles de novo, Las Vegas, San Diego e até mesmo cruzei a fronteira mexicana e visitei Tijuana. E, é claro, conheci Phoenix, Tempe, Scottsdale, Mesa, as Superstition Mountains. Conheci um polonês gente boa em Mesa e inúmeros estrangeiros dos mais diversos países nos albergues onde fiquei.

Infelizmente, não fiz grandes amigos no trabalho. Os brasileiros que vieram antes de nós com certeza se divertiram e se misturaram mais, como pude notar pelas fotos que eu vi. Nós, por outro lado, fomos mais tímidos, mais retraídos, menos falantes. Quase não saímos com nossos colegas de trabalho e isso é o meu único arrependimento. E eu ainda por cima perdi o churrasco de despedida: foi na segunda-feira, justamente no dia em que parti. Faltou planejamento.

Jack, eu e Camila

Mas as partes boas com certeza ganham das ruins. As memórias que fiz valeram a pena. Por isso que ao me despedir do meu chefe no aeroporto, não consegui evitar algumas lágrimas. Como eu acho que já disse antes, odeio despedidas. E ainda é difícil aceitar que estou em casa. Acho que meu cérebro é teimoso e se recusa a acreditar. Ninguém gosta de se dar conta de que o tempo passou. Muito menos bons tempos como esses.

WHO SAYS YOU CAN’T GO HOME

Um bom cowboy à casa torna

É claro que eu gostaria de estar viajando ainda, mas é bom estar de volta em casa. Rever meus amigos, minha família, a cidade, minhas ruas, minhas coisas, minha faculdade, minhas aulas. De volta à velha vida de sempre. Mas eu não me sinto o mesmo. Uma experiência assim expande os horizontes de qualquer um. Te torna mais humilde, mais aberto, mais flexível. E por último, mas não menos importante: passei a gostar ainda mais de viajar. Não só de conhecer uma cidade nova, não só apreciar uma paisagem bonita, mas a jornada como um todo. A ida, não só a chegada. Pegar um ônibus, carro, avião. Esperar no aeroporto, na estação de ônibus, enfrentar a estrada. Tudo isso acrescenta à experiência e te faz sentir mais satisfeito no final. Parafraseando o slogan de uma agência concorrente, você nunca volta o mesmo de uma viagem. E eu prefiro acreditar que eu mudei para melhor, nem que seja um pouquinho.

E assim, encerro também as atividades desse blog. Foi divertido dividir minhas histórias com o mundo, ou pelo menos com alguns poucos amigos. Quem sabe algum dia não será útil para um futuro intercambista que fará o mesmo que eu? Se algum dia acontecer, seria uma honra. Espero que o sujeito deixe um comentário também. fico feliz em ver que tive até mais acessos do que esperava e até ganhei o Troféu Egali pela melhor foto entre os intercambistas. A foto vencedora foi a memorável Engolindo Hollywood, da qual com certeza vocês se lembram. E com isso, US$ 120 na minha conta.

Mas o importante nisso não é o dinheiro que se ganha, que nem é muito, e sim as memórias que se faz. E podem ter certeza de que poucas coisas são tão valiosas do que ter boas memórias da vida. Então, para mim valeu a pena. Espero que tenham gostado, apesar dos meus textos enormes e das trocentas fotos que eu postei. Me desculpem, mas não consegui fazer de outro jeito. Tomara que algum dia um futuro intercambista leia esse meu relato e se inspire a fazer o mesmo que eu. Se isso acontecer, posso considerar minha missão cumprida.

Foi um prazer contar minhas histórias para vocês, e acho que valeu a pena todo o esforço que eu fiz para manter esse blog funcionando. Foi bom enquanto durou.

GALERIA DE FOTOS


6 Respostas para “O fim”

  1. Cara mt legal seu blog, e com certeza vai me ajudar com minha futura viajem…
    abraços

  2. Cara,
    legal demais esse seu “diário” na internet!
    Parabéns pelo trabalho! Muito bom mesmo!
    Estou indo para Mesa em dezembro!
    Qual o seu e-mail?
    Tem facebook, orkut e afins? hehehe
    Sou de Belo Horizonte! E ri demais quando você falou de um cara de BH, na hora de “meiar” a conta! hahaha
    Abs!

  3. Oie vim te visitar :)

    Sobre o documentário infelizmente nao o achei em portugues, mas é um doc do “der Spiegel” e o título é “Schöner Leben mit Hartz IV” mas se vc procurar só pelo tema “Hartz IV” vai encontrar muitas outras também.
    Abraco!

  4. Missão cumpeida, gostei demais do seu texto. E sou um futuro intercambista! Para greebsburg, PA.


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